A revista para autores
Capítulo I: Ofício e prática
Da primeira frase ao manuscrito pronto: ferramentas, hábitos e a forma em que um texto chega à mesa de uma editora.
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Como escrever um livro infantil: idades, extensão e ilustração
Os livros para crianças são curtos, mas não são fáceis. Que formatos servem cada idade, que extensão esperar, como texto e imagem trabalham juntos e o que verificar antes de enviar um original a uma editora infantojuvenil.
6 min de leitura · Atualizado em 23 de setembro de 2026

Costuma pensar-se que um livro infantil é mais fácil do que um romance: menos palavras, frases mais simples. Quem já tentou sabe que não é assim. Num livro ilustrado, cada palavra tem de merecer o seu lugar, e um romance juvenil tem de agarrar leitores que fecham um livro sem hesitar assim que ele os aborrece. Além disso, a maioria dos livros infantis tem dois públicos: as crianças que os leem ou ouvem, e os adultos que os compram e os leem em voz alta.
O primeiro passo é, por isso, uma decisão clara: para que idade escreve? Dessa escolha dependem o formato, a extensão, o vocabulário e o papel da imagem.
Idades e formatos
As fronteiras são flexíveis, e cada editora organiza as suas coleções à sua maneira. O quadro seguinte dá referências, tal como se encontram com frequência na edição infantojuvenil:
| Formato | Idade (referência) | Extensão habitual | Papel da imagem |
|---|---|---|---|
| Livro cartonado | dos 0 aos 3 anos | algumas palavras a poucas frases | a imagem conta quase tudo |
| Livro ilustrado (álbum) | cerca dos 3 aos 7 anos | muitas vezes 32 páginas; texto frequentemente abaixo das 1.000 palavras, muitas vezes bem menos | texto e imagem contam a história juntos |
| Primeiras leituras | cerca dos 6 aos 8 anos | textos curtos, muitas vezes por níveis, de algumas centenas a um ou dois milhares de palavras | a imagem apoia a leitura |
| Livro de capítulos | cerca dos 6 aos 9 anos | muitas vezes entre 5.000 e 15.000 palavras | algumas ilustrações a preto e branco |
| Romance juvenil | cerca dos 8 aos 12 anos | muitas vezes entre 30.000 e 55.000 palavras | poucas ou nenhumas |
| Young adult | cerca dos 12 aos 18 anos | muitas vezes entre 50.000 e 90.000 palavras | em geral nenhumas |
Não são regras, mas mostram como pensam editores e livreiros. Um texto de livro ilustrado com 3.000 palavras ou um romance de estreia de 100.000 palavras para leitores de dez anos terá uma subida difícil pela frente, por muito bem escrito que esteja.
O livro ilustrado: cada palavra conta
Os livros ilustrados leem-se quase sempre em voz alta, por isso o texto tem de soar bem: ritmo, repetições a que a criança se possa juntar e frases que nunca façam tropeçar o adulto que lê. Leia cada versão em voz alta, várias vezes.
Tão importante como o que escreve é o que deixa de fora. O que a imagem mostra, o texto não precisa de dizer. Se a ilustração mostra um casaco vermelho, a frase dispensa a palavra «vermelho». Os bons textos de livro ilustrado deixam espaço à ilustração, e por vezes a imagem conta uma história ligeiramente diferente da das palavras, algo que as crianças adoram descobrir.
Primeiras leituras e livros de capítulos
As primeiras leituras destinam-se às crianças que estão a aprender a ler sozinhas, em geral nos primeiros anos do 1.º ciclo. Organizam-se muitas vezes por níveis, com frases curtas, palavras familiares, letra grande e poucas linhas por página. Muitas editoras têm coleções próprias, com exigências precisas quanto à extensão das frases, ao vocabulário e ao número de palavras. Se quiser escrever para uma delas, leia vários títulos da coleção e procure as suas indicações.
Os livros de capítulos são o degrau seguinte: capítulos curtos, um enredo simples e, muitas vezes, as mesmas personagens ao longo de uma série. Nos dois formatos o desafio é o mesmo: contar uma história que dê verdadeiro prazer dentro de limites apertados. Uma criança que decifra palavra a palavra precisa de uma razão para continuar, seja uma pergunta, uma situação engraçada ou uma personagem por quem torcer.
O romance juvenil: ritmo e respeito pelo leitor
Por volta dos oito anos, as crianças passam a ler histórias mais longas, divididas em capítulos. Aplicam-se no essencial as regras do romance: um conflito claro, uma personagem principal com um objetivo, capítulos que dão vontade de ler o seguinte. Algumas convenções merecem ser conhecidas:
- O protagonista costuma ser um pouco mais velho do que os leitores. As crianças gostam de ler sobre personagens para quem possam olhar um pouco de baixo para cima.
- São as crianças que resolvem o problema. Se um adulto aparece no fim e arruma tudo, o jovem leitor sente-se enganado.
- Nada de sermões. As crianças percebem logo quando uma história existe só para transmitir uma mensagem. Os valores podem viver no enredo, não em prédicas.
- Capítulos curtos. Muitos romances juvenis têm capítulos que se leem de uma assentada, antes de dormir.
Ilustração: quem desenha, quem decide?
A regra mais importante para quem escreve livros ilustrados surpreende muitos principiantes: quando propõe o projeto a uma editora, envia em princípio só o texto. É a editora que escolhe o ilustrador ou a ilustradora, de acordo com o seu catálogo e o tom do livro. Juntar esboços seus, ou desenhos de um amigo, pode até prejudicar a proposta. A exceção é o autor-ilustrador profissional, que apresenta texto e imagens em conjunto, em geral numa maqueta com algumas páginas duplas acabadas.
Onde a imagem tem de mostrar algo que o texto cala de propósito, pode acrescentar breves indicações para a ilustração, entre parênteses retos ou em itálico. Use-as com parcimónia, só onde a história não se perceberia sem elas.
Na autopublicação, é o autor que encomenda as ilustrações. Acorde por escrito que direitos recebe, para que edições e territórios, e como é pago o ilustrador; para o contrato, vale a pena ouvir um profissional. Pense também na produção: um miolo a cores custa bastante mais na impressão a pedido do que um a preto e branco, o que se reflete no preço de capa. O nosso artigo Brochura: formato, encadernação e impressão resume as opções.
Antes de enviar um livro infantil
- Idade e formato claramente decididos
- Extensão dentro do intervalo habitual para esse formato
- Texto lido muitas vezes em voz alta, de preferência a crianças da idade visada
- Livros ilustrados: texto pensado em páginas duplas, viragens de página usadas de propósito
- Indicações para a ilustração só onde são indispensáveis
- Nenhuma ilustração anexada, a menos que ilustre profissionalmente
- Catálogo e condições de envio da editora verificados
Perguntas frequentes
Tenho de ilustrar o meu próprio livro ilustrado?
Não. Se enviar o texto a uma editora, envia em princípio só o texto, e a editora escolhe quem ilustra. Apenas os autores-ilustradores profissionais apresentam texto e imagens em conjunto. Na autopublicação, contrata um ilustrador.
Um livro ilustrado tem de ser em verso?
Não. Um texto rimado pode ser maravilhoso, mas só quando a rima e a métrica são impecáveis. Uma rima forçada faz mais mal do que bem, e muitos editores olham com cautela para propostas em verso. Muitos livros ilustrados queridos estão escritos em prosa.
Como sei se o meu texto se adequa à idade?
Leia muitos livros recentes para a mesma idade e compare a extensão das frases, o vocabulário e o número de palavras. Leia o texto em voz alta a crianças da idade visada e repare onde ficam irrequietas ou fazem perguntas.
Capítulo II: Dramaturgia e personagens
O que sustenta uma história: tensão, pontos de viragem e personagens cujos desejos movem o enredo.
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Capítulo III: Mundos literários
As leis de cada género, do thriller ao livro infantil, e quando vale a pena quebrá-las de propósito.
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Capítulo IV: Estética do livro e paginação
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Capítulo V: O caminho até ao leitor
Sinopse, editora ou autopublicação: os caminhos do manuscrito ao livro e o que cada um exige.
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Capítulo VI: Visibilidade e alcance
Como os leitores encontram o seu livro: site de autor, séries, críticas e quanto um livro rende de facto.
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